Yemanjá, a Rainha do Mar

Iorubá Yèyé omo ejá (“Mãe cujos filhos são peixes”). Yemanjá, orixá africano (um dos mais conhecidos) tem vários outros nomes.
Thereza Felipelli
Iorubá Yèyé omo ejá (“Mãe cujos filhos são peixes”). Yemanjá, orixá africano (um dos mais conhecidos) tem vários outros nomes. Yemayá, Yemoejá, Yemoja ou Yemonja. Alguns usam o “i” ao invés do “y”. Como bem dizia Jorge Amado, “Yemanjá, rainha do mar, é também conhecida por dona Janaína, Inaê, Princesa de Aiocá e Maria, no paralelismo com a religião católica. Aiocá é o reino das terras misteriosas da felicidade e da liberdade, imagem das terras natais da África, saudades dos dias livres na floresta”.
No rito Jeje ela é Abe, representada pela Estrela Guia; já no rito Angola é Dandalunda (ou Quissimbe). É ainda reverenciada por outros nomes, como Mãe d´água, Iara, Sereia, Princesa do Mar, Marbô, Mucunã, entre tantos outros.
E não é apenas a rainha do mar, e sim uma das rainhas de dois tipos de águas salgadas, as lágrimas da mãe que sofre ao ver seus filhos se afastarem rumo a independência; e o mar, onde ela mora e onde costuma receber presentes e oferendas de seus devotos.
No Brasil, é muito respeitada, conhecida e amada. Em Cuba também. Lá ela é negra e conhecida por Yemayá, tendo ainda como nome cristão La Virgen de la Regla. Religiosamente sincretizada com Nossa Senhora da Glória e Nossa Senhora dos Navegantes, Yemanjá é mãe de toda vida no planeta.
Salve a Rainha!
Homenagens a ela são feitas normalmente na beira do mar. As oferendas ou presentes podem ser colocados na areia ou num barquinho artesanal que é solto após passar (pular) sete ondas. Azul claro e branco são suas cores, e suas bebidas favoritas são sidra, espumante e champanhe. Normalmente os devotos oferecem também velas, flores e fitas.
Algumas das comidas preferidas são manjar branco, acaçá, peixe do mar, bolo de arroz, ebôya e furás. Seu axé pode ser assentado sobre pedras marinhas e conchas enfeitadas com colares e lenços de suas cores ou ainda porcelana azul. Sete pedras servem de base ao assentamento, sendo que cada uma é um “fundamento”, a morada de um orixá, e é acompanhada por outras em número correspondente à marca ou cifra que simboliza a divindade.
Os atributos (“ferramentas”) de Yemanjá são elaborados em prata, aço, latão ou chumbo, e são o sol (oru), a lua cheia (ochú), uma âncora (dakoduro), um salva-vidas (yika), uma canoa (okokeré) ou um barco (oko), sete ramos (alami), sete aros de prata (bopa), uma chave (chileku) e uma estrela (irawo).
São adornos emblemáticos miniaturas de patos, peixes, redes, estrelas, cavalos marinhos, conchas, e tudo quanto as entranhas do mar criam. Já do seu enxoval fazem parte marugas – acherá ou chaichá (espécie de maracá), sinetas (agogô), lenços, leques (são redondos e bordados com búzios e contas) e iruquerés (tipo espanta-moscas, conhecidos como “rabos”) enfeitados com contas azuis e brancas.
O sábado é o dia da semana que lhe é consagrado, juntamente com outras divindades femininas. Seus adeptos usam colares de contas de vidro transparentes e vestem-se, de preferência, com as cores da rainha.
Comemoração
Salvador, capital baiana, é o palco da festa mais tradicional em homenagem à Yemanjá, realizada na praia do Rio Vermelho todo dia 2 de fevereiro, data em que ela também é cultuada em muitas outras praias em todo o Brasil. Aliás, por isso nossa homenagem a ela neste sábado.
As festividades e homenagens em todo o País, na realidade, começam em dezembro, logo após o Natal, e se estendem ao longo do mês de janeiro do ano seguinte. Em Copacabana, no Rio de Janeiro, essas comemorações fazem parte da passagem de ano.
Filhas de Yemanjá
E como são as filhas de Yemanjá? Segundo uma delas, Lydia Cabrera, “as filhas (e filhos) de Yemanjá são voluntariosas, fortes, rigorosas, protetoras, altivas e, algumas vezes, impetuosas e arrogantes; têm o sentido da hierarquia, fazem-se respeitar e são justas mas formais; põem à prova as amizades que lhes são devotadas, custam muito a perdoar uma ofensa e, se a perdoam, não a esquecem jamais. Preocupam-se com os outros, são maternais e sérias. Sem possuírem a vaidade de Oxum, gostam do luxo, das fazendas azuis e vistosas, das jóias caras. Elas têm tendência à vida suntuosa mesmo se as possibilidades do cotidiano não lhes permitem um tal fausto”.
Oxum X Yemanjá
No livro “Os Orixás” os filhos de Yemanjá são comparados aos de Oxum, mãe da água doce. Ambos gostam de luxo, conforto, sofisticação, jóias caras e tecidos vistosos. No entanto, há algumas diferenças marcantes. Os filhos de Oxum são diplomatas, sinuosos. Já os filhos da Rainha do Mar são fortes, determinados, amigos e companheiros e dão grande importância à família. A relação com eles pode ser carinhosa, mas nunca esquecendo conceitos tradicionais como respeito e principalmente hierarquia. São diretos e capazes de chantagens emocionais, mas nunca diabólicas.
Não gostam de solidão, precisam fazer parte de um grupo e costumam se casar cedo. Não gostam de viajar, preferem a rotina do dia a dia, não fazem planos a longo prazo (a menos que se trate da vida de seus filhos ou parentes) e nem tem obsessão pela carreira. Mas também são doces, carinhosos, e se envolvem com facilidade com problemas e sentimentos dos outros.
No entanto, como qualquer orixá, tem defeitos também. O filho de Yemanjá pode ter uma tendência a querer ser responsável pela vida dos que o cercam, como a mãe de todos. Além disso, também é muito analítico, observador, leva tempo para se conquistar sua confiança. Mas quando são conquistados, amam sem restrições e defendem com unhas e dentes, nos erros ou acertos, tendo grande capacidade de perdoar.
Lenda de Yemanjá, segundo o Candomblé
Yemanjá era a filha de Olokum, a deusa do mar. Em Ifé, ela tornou-se a esposa de Olofin-Odudua, com quem teve dez filhos, que receberam nomes simbólicos. Todos se tornaram orixás. Um deles foi chamado de Oxumaré, o Arco-Íris, “aguele-que-se-desloca-com-a-chuva-e-revela-seus-segredos”. De tanto amamentar seus filhos, os seios de Yemanjá tornaram-se imensos.
Cansada da sua estadia em Ifé, Yemanjá fugiu na direção do “entardecer-da-terra”, como os iorubas designam o Oeste, chegando a Abeokutá. Ao norte de Abeokutá, vivia Okerê, rei de Xaki. Yemanjá continuava muito bonita e Okerê a pediu em casamento. Yemanjá aceitou, mas, impondo uma condição, disse-lhe: “Jamais você ridicularizará da imensidão dos meus seios.” Um belo dia ele bebeu vinho em excesso e voltou para casa bêbado. Ao tropeçar em Yemanjá, ela o chamou de bêbado e imprestável. Okerê, vexado, gritou: “Você, com seus seios compridos e balançantes! Você, com seus seios grandes e trêmulos!” Yemanjá, ofendida, fugiu em disparada.
Em sua fuga, Yemanjá tropeçou e caiu, derrubando uma garrafa (que havia ganhado de sua mãe, que lhe disse para jogá-la no chão em caso de necessidade). A garrafa então quebrou e dela nasceu um rio, que a levou em direção ao oceano, onde mora sua mãe Olokum.
Okerê, contrariado, queria impedir a fuga de sua mulher a qualquer custo e querendo barrar seu caminho se transformou numa colina chamada até hoje Okerê. Ao ver seu caminho bloqueado, Yemanjá chamou Xangô, o mais poderoso dos seus filhos, que pediu uma oferenda de um carneiro e quatro galos, um prato de “amalá”, preparado com farinha de inhame, e um prato de “gbeguiri”, feito com feijão e cebola, declarando que no dia seguinte Yemanjá encontraria por onde passar. Nesse dia, Xangô desfez todos os nós que prendiam as amarras da chuva, começaram a aparecer nuvens e quando todas estavam reunidas lançou seu raio sobre a colina, que se abriu em duas. Então Yemanjá se foi para o mar de sua mãe Olokum, lá ficou e se recusa, desde então, a pisar em terra.
Foto: Divulgação
fonte imprensa livre

